quarta-feira, 19 de março de 2014

IMPRESSÕES SOBRE A ESCOLARIDADE DAS PESSOAS COM SURDEZ



Muito tem se discutido sobre o desenvolvimento da pessoa com surdez no que se refere à formação escolar e a inclusão dessas pessoas no contexto da Escola Comum. Através dos estudos e do trabalho com os alunos surdos fomos localizando equívocos na forma como eram conduzidas as estratégias pedagógicas para o ensino desses alunos.
Ao longo da história, muitos estudos foram se desenvolvendo e se firmando em torno de três concepções que dominaram esse cenário: a oralista, a comunicação total e o bilingüismo. Essas propostas de trabalho com o aluno surdo aconteciam em escolas especiais ou em classes especiais.
A concepção oralista centrava na língua das pessoas ouvintes, ou seja, a pessoa com surdez deveria aprender a usar a voz e fazer leitura labial, a oralização era a única possibilidade lingüística, o que deveria acontecer na escola e na vida social. Esse formato não favoreceu o desenvolvimento das pessoas com surdez, principalmente, porque não foi valorizado o aprendizado da língua de sinais como primeira língua. Já na proposta da comunicação total, o foco era o uso de qualquer tipo de recurso que pudesse estabelecer a comunicação: linguagem gestual, visual, textos orais, escritos. Essa é mais uma concepção questionada, os alunos continuavam excluídos da aprendizagem escolar, segregados, não valorizados e a língua de sinais como língua um, essencialmente indispensável para a comunidade surda, mais uma vez, não tinha importância.
Na concepção que defende o bilingüismo, o objetivo é valorizar a aprendizagem das duas línguas, a língua de sinais como língua um e a Língua Portuguesa como língua dois, ambas utilizadas na esfera escolar e no âmbito social, essa visão respeita e busca construir no espaço educacional um ambiente propício a aprendizagem da pessoa com surdez.
A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva assinada pelo MEC em 2002, propõe mudanças importantes no ambiente educacional, através de ações que possibilitam a participação do aluno no espaço da escola comum, promovendo o pleno desenvolvimento e o aprendizado das pessoas com surdez.

“O AEE promove o acesso dos alunos com surdez ao conhecimento escolar em duas línguas: em Libras e em Língua Portuguesa, a participação nas aulas e o desenvolvimento do seu potencial cognitivo, afetivo, social e lingüístico, com os demais colegas da escola comum”. (UFC-MEC/2010 p. 10)


Na construção desse ambiente bilíngüe da escola comum, a política nacional prevê o Atendimento Educacional Especializado em três momentos: AEE em Libras, AEE de Libras e AEE de Língua Portuguesa, nesse sentido, afirma que “O AEE em seus três momentos visa oferecer a esses alunos a oportunidade de demonstrarem se beneficiar de ambientes inclusivos de aprendizagem”. (UFC-MEC/2010 p. 10).
Na perspectiva bilíngüe os profissionais que atuam no AEE da escola comum devem ter a formação adequada para que a evolução da aprendizagem dos alunos aconteça plenamente. No AEE de Libras o professor precisa ter conhecimento da estrutura da língua, desenvolver os conceitos em Libras de forma vivencial e elaborar os recursos didáticos.
As atividades do AEE em Libras – L1 são desenvolvidas por educadores surdos e tem por objetivo o contato com a LIBRAS. A aquisição dessa língua permite o desenvolvimento lingüístico suficiente para aquisição de outras línguas.
Para o ensino da Língua Portuguesa – L2 o acompanhamento é feito preferencialmente por professor com formação em letras, cujo objetivo é desenvolver a competência lingüística e textual nas pessoas com surdez, nesse atendimento, o canal de comunicação específico é a Língua Portuguesa, leitura labial, leitura e escrita.
Diante do exposto, é um equívoco o pensamento de muitos educadores da escola comum, quando pensavam que a língua de sinais era pré-requisito para que o aluno pudesse evoluir na escrita da Língua Portuguesa, fica claro que, mais do que aprender uma língua, as pessoas com surdez precisam de “ambientes educacionais” estimuladores que desafiem o pensamento e exercitem sua capacidade cognitiva. 
Nesse sentido, as ações da escola, as situações didáticas, os conteúdos e currículos devem ser efetivados de maneira que tenham sentido para os alunos ouvintes e compartilhados com os alunos surdos.
 
Referências

Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar. Fascículo 05: Educação Escolar de Pessoas com Surdez – Atendimento Educacional Especializado em Construção, p. 46-57.

DAMÁZIO, M. F. M.; ALVES, C. B. Atendimento Educacional Especializado do aluno com surdez. Capítulo 2. São Paulo: Moderna, 2010.



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