Muito tem se discutido
sobre o desenvolvimento da pessoa com surdez no que se refere à formação
escolar e a inclusão dessas pessoas no contexto da Escola Comum. Através dos
estudos e do trabalho com os alunos surdos fomos localizando equívocos na forma
como eram conduzidas as estratégias pedagógicas para o ensino desses alunos.
Ao longo da história, muitos
estudos foram se desenvolvendo e se firmando em torno de três concepções que
dominaram esse cenário: a oralista, a
comunicação total e o bilingüismo. Essas propostas de trabalho com o aluno
surdo aconteciam em escolas especiais ou em classes especiais.
A concepção oralista
centrava na língua das pessoas ouvintes, ou seja, a pessoa com surdez deveria
aprender a usar a voz e fazer leitura labial, a oralização era a única
possibilidade lingüística, o que deveria acontecer na escola e na vida social.
Esse formato não favoreceu o desenvolvimento das pessoas com surdez, principalmente,
porque não foi valorizado o aprendizado da língua de sinais como primeira língua.
Já na proposta da comunicação total, o foco era o uso de qualquer tipo de
recurso que pudesse estabelecer a comunicação: linguagem gestual, visual,
textos orais, escritos. Essa é mais uma concepção questionada, os alunos
continuavam excluídos da aprendizagem escolar, segregados, não valorizados e a
língua de sinais como língua um, essencialmente indispensável para a comunidade
surda, mais uma vez, não tinha importância.
Na concepção que defende o bilingüismo,
o objetivo é valorizar a aprendizagem das duas línguas, a língua de sinais como
língua um e a Língua Portuguesa como língua dois, ambas utilizadas na esfera
escolar e no âmbito social, essa visão respeita e busca construir no espaço educacional
um ambiente propício a aprendizagem da pessoa com surdez.
A Política Nacional de
Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva assinada pelo MEC em 2002,
propõe mudanças importantes no ambiente educacional, através de ações que possibilitam
a participação do aluno no espaço da escola comum, promovendo o pleno desenvolvimento
e o aprendizado das pessoas com surdez.
“O AEE promove o
acesso dos alunos com surdez ao conhecimento escolar em duas línguas: em Libras
e em Língua
Portuguesa , a participação nas aulas e o desenvolvimento do
seu potencial cognitivo, afetivo, social e lingüístico, com os demais colegas
da escola comum”. (UFC-MEC/2010 p. 10)
Na construção desse
ambiente bilíngüe da escola comum, a política nacional prevê o Atendimento
Educacional Especializado em três momentos: AEE em Libras, AEE de Libras e AEE
de Língua Portuguesa, nesse sentido, afirma que “O AEE em seus três momentos
visa oferecer a esses alunos a oportunidade de demonstrarem se beneficiar de
ambientes inclusivos de aprendizagem”. (UFC-MEC/2010
p. 10).
Na perspectiva bilíngüe os
profissionais que atuam no AEE da escola comum devem ter a formação adequada
para que a evolução da aprendizagem dos alunos aconteça plenamente. No AEE de
Libras o professor precisa ter conhecimento da estrutura da língua, desenvolver
os conceitos em Libras de forma vivencial e elaborar os recursos didáticos.
As atividades do AEE em
Libras – L1 são desenvolvidas por educadores surdos e tem por objetivo o
contato com a LIBRAS. A aquisição dessa língua permite o desenvolvimento lingüístico
suficiente para aquisição de outras línguas.
Para o ensino da Língua Portuguesa
– L2 o acompanhamento é feito preferencialmente por professor com formação em
letras, cujo objetivo é desenvolver a competência lingüística e textual nas
pessoas com surdez, nesse atendimento, o canal de comunicação específico é a Língua
Portuguesa, leitura labial, leitura e escrita.
Diante do exposto, é um equívoco o pensamento de muitos
educadores da escola comum, quando pensavam que a língua de sinais era pré-requisito
para que o aluno pudesse evoluir na escrita da Língua Portuguesa, fica claro que, mais do que aprender uma língua, as pessoas com surdez
precisam de “ambientes educacionais” estimuladores que desafiem o pensamento e
exercitem sua capacidade cognitiva.
Nesse sentido, as ações da escola, as situações
didáticas, os conteúdos e currículos devem ser efetivados de maneira que tenham
sentido para os alunos ouvintes e compartilhados com os alunos surdos.
Referências
Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da
Inclusão Escolar. Fascículo 05: Educação
Escolar de Pessoas com Surdez – Atendimento Educacional Especializado em Construção,
p. 46-57.
DAMÁZIO, M. F. M.; ALVES, C. B. Atendimento Educacional
Especializado do aluno com surdez. Capítulo
2. São Paulo: Moderna, 2010.
Nenhum comentário:
Postar um comentário